domingo, 21 de outubro de 2007

O futuro de Herman


Herman José está a escassos dois meses de terminar o seu contrato com a SIC. Já há um ano o tabu foi cerradíssimo. Assina, não assina? Vai para a RTP, vai para a TVI ou vai tirar uma licença sabática? Ele assinou por um ano e fez o programa que Penim queria, não um talk show como fazia, mas um programa de humor puro e duro. Agora, que estamos quase no fim de Outubro, as dúvidas adensam-se de novo. Sempre que Herman aparece em público, os jornalistas fazem-lhe a pergunta da ordem, mas Herman diz que "ainda é cedo". Tenho para mim que desta vez é que é. Depois de perder os Gatos, o Monchique, a Ana Bola, o Nilton, o Marco Horácio, a SIC vai perder Herman José. Não surpreende: as relações entre Penim e Herman José nunca foram boas, apesar de ambas as partes negarem elegantemente essa evidência. Há uma tensão permanente, um ranger de dentes, uma incomodidade indesmentível. Penim gostava que Herman rendesse mais, que as suas criações voltassem a ter o glamour de antigamente. Por outro lado, Herman não entende como o seu programa é atirado para a madrugada, e sente saudades do tempo (Manuel Fonseca) em que era tido como uma estrela da SIC.
Ambos terão razão: ninguém pode, desta vez, dizer que Francisco Penim não tentou tudo para Herman triunfasse. Na estreia, em Fevereiro, começou às 22.30 e fez 20 pontos de share. Saltou para as 23h e piorou, às 21h foi um desastre (12% de share em horário nobre numa estação privada e comercial é um suicídio). O Hora H já teve seis horários diferentes. Agora, por via da "Família Superstar" ao domingo, passou para o sábado. De novo de madrugada.
Também se percebe o desgosto de Herman: por um lado, sente o potencial da sua criação ser desbaratado num horário madrugador, depois, quando toda a crítica desancava na qualidade do programa, ele disse "daqui a um tempo ainda se vai dizer que é um programa de culto". E, de facto passados oitos meses há críticos de televisão que não poupam elogios à dinâmica da narrativa e à evolução do formato. Mesmo assim, porém, sem audiência.
Para Herman este parece ser o fim da linha na SIC.E não me admirava muito que dentro de seis a dez meses (depois de uma paragem que Herman precisa, até para os portugueses sentirem saudades...)o "verdadeiro artista" estivesse na RTP. E alguém se admiraria se fosse um sucesso?

Coisas da rádio III


Eu não sei se Paulo Cintrão (TSF) gostará ou não da comparação, mas para mim torna-se cada vez mais claro: ele é, mutatis mutandis, o sucessor de Jorge Perestrelo na arte de relatar um jogo de futebol. Sim, eu sei que Perestrelo, cuja morte aos 56 anos a 6 de Maio de 2005 deixou um vazio na rádio, não era um gerador de consensos. Com ele era branco ou preto, uma espécie de amor/ódio. Há quem não suportasse aquela forma frenética, exagerada, no limite, de relatar a "rapaqueca"; há quem achasse um disparate aquelas expressões "eu com a minha barriguinha...", "pela madrugada...", "o que é que é isso, ó meu...", "levantado o pau...". Era o estilo dele. Um estilo quente de África, um toque brasileiro no relato, que fez hístória, que marcou a rádio em Portugal. Eu gostava. Cresci a ouvi-lo, ainda na Onda Media da Comercial e, depois, na TSF.



Ora, Paulo Cintrão, que já era um excelente repórter de pista e que por via da escassez de relatores na TSF (a morte de Perestrelo, a saída de Helder Conduto e de Fernando Correia) se fixou a fazer relatos, bebe muito da inspiração do mestre. Não é daquelas cópias descaradas que se encontram pelas rádios locais Portugal afora, mas é um estilo, uma língua mais solta, uma emoção que salta do relvado para a rádio.
Cintrão sabe bem (sempre soube...) aproveitar a excelente voz grave que tem. E esticá-la aos limites numa jogada de perigo, e arrastar/carregar/prolongar os "rrr", como Perestrelo fazia. Ontem, quando Fredy Adou marcou o golo salvador do Benfica-Vitória de Setúbal no último minuto, quando ouvia Paulo Cintrão a gritar o golo, estava a "ouvir" Perestrelo. E quando acabou de o gritar, antes de chamar o repórter David Carvalho, Paulo Cintrão ainda disse emocionado: "É um golo fantástico, um golo que... enfeita o futeboooooool". Eu, que conheço as expressões de Perestrelo de cor e salteado, logo me lembrei de um clássico: "É um golo fantástico, um golo que... aquece a alma".

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Coisas da rádio II



Quem dizia que o Rádio Clube Português seria uma nova Central FM estava enganado. Não é. Tem ainda muito que crescer, é um facto, falta-lhe ganhar coerência durante o dia e uma maturidade de antena que ainda não tem, mas só não vê quem não quer que as suas manhãs (7-12, "Minuto a Minuto, com João Adelino Faria) são hoje um espaço de referência na informação matinal das manhãs. Com uma agenda própria, com uma história do dia todos os dias, sem andar a reboque do que dizem os jornais e, depois, com um leque de colunistas onde se incluem nomes de primeira grandeza como Pacheco Pereira, Maria João Avilez, Inês Serra Lopes, Mário Crespo, Maria Filomena Mónica, Daniel Sampaio, Dias Loureiro, Ana Gomes. A qualidade dos seus convidados diários é bem a prova de que a estação da Prisa já obrigou as agências de comunicação a inclui-la nas suas agendas.
É verdade que o Bareme Rádio da Marktest ainda não reflecte esse trabalho (só quem não percebe muito de rádio poderia achar que ao fim de duas vagas, com os efeitos de uma limpeza de antena ainda no ar, os estudos de opinião seriam já muito positivos) e que isso ainda vai demorar algum tempo a acontecer (entre seis meses a um ano), mas que o novo RCP já foi capaz de marcar a agenda, isso é indesmentível.

PS - Torno público o obrigatório "registo de interesses": sou amigo de João Adelino Faria e colaborador do Rádio Clube, com um espaço de opinião sobre Televisão, à segunda-feira, a partir das 11.30. Tais factos, porém, não me toldam a objectividade nem o sentido de justiça.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Coisas da rádio I



De há uns tempos para cá, a manhã das rádios descobriu o humor. O filão começou, e bem, com essa tripla inesquecível da (então) Comercial: Markl, Malato e Lamy, em o Homem que Mordeu o Cão. Depois disso, os programadores acharam que o humor ia bem com torradinhas e galão ao pequeno almoço. E toca de carregar na dose, abusando ad nauseam da receita. E temos pois exemplos indigentes de humor mas também verdadeiras pérolas. Neste particular, a TSF acertou na mouche. Os seus Cromos foram, há dois anos, uma pedrada no charco, sobretudo Ana Bola, Joaquim Monchique e, às vezes, Maria Rueff. Agora, em nova versão, Bola e Rueff juntam-se para fazer Denise e Maria Delfina, duas "manicuras" que recuperam o conceito da comédia "Celadon". Mas o grande achado da rádio de José Fragoso é mesmo Bruno Nogueira e o seu "Tubo de Ensaio". São quatro minutos de puro humor. Ainda ontem, Nogueira entrevistava "José Mourinho" ("um português desempregado que tentou a sua sorte lá fora, num país longínquo como a Inglaterra"), quando foi subitamente interrompido por um directo sobre Santana Lopes. Obviamente, não abandonei a emissão a meio...

Foto: DN

sábado, 13 de outubro de 2007

Alguém me explica?


















Que mistérios insondáveis poderão explicar por que razão a Polícia Municipal de Lisboa e a Emel, sempre tão solícitas a multar e a rebocar selvaticamente quem estaciona o carro de forma selvagem na capital, fecham os olhos ao escândalo que se repete todos os sábados à noite na Avenida da Liberdade? As imagens que aqui apresento foram captadas há poucos minutos do meu telemóvel. E o que apresento aqui não aconteceu hoje por acaso ou por qualquer ocasião especial. O cenário que ali vimos repete-se todos os sábados, há mais de três anos, desde que o Hard Rock Café abriu as portas no Rossio e La Feria começou a encher o seu Politeama.
A partir do meio da avenida da Liberdade, os condutores estacionam, sistematicamente ao sábado à noite, o carro em cima dos passeios da faixa central da avenida. Sim, aqueles largos passeios que o ex-presidente Santana, que o ex-presidente Carmona e que agora o presidente Costa querem que seja dos lisboetas.
Hoje, em pleno Rossio, vários polícias municipais estavam pelas ruas em vigilância, bloqueando carros em frente ao Palácio Foz (não fosse algum alto quadro do Estado querer trabalhar à meia noite...), mas fechando os olhos, de uma forma tão absurda como aviltante, às dezenas de carros estacionados com as quatro rodas nos passeios da Avenida.
Mais espantoso ainda: à mesma hora, na Rua Jardim do Regedor, ali mesmo no Rossio, um incauto condutor tinha parado o carro encostado a uma parede para rapidamente ir buscar uma pizza a um restaurante. Pois lá estava a carrinha da Polícia Municipal, toda computorizada, com os seus bempostos agentes tratando de ver os documentos da viatura, mais a carta de condução, mais os euros em troca dos quais a viatura seria desbloqueada.
Que raio de moralidade é esta? Que justiça é esta? Que polícia é esta? Que interesses são estes? Porque razão ninguém quer estragar o negócio ao Hard Rock Café e ao La Feria e me estragam a vida a mim e a qualquer outro cidadão se, durante o dia da semana, enquanto trabalho, me esquecer de ir lá pôr o talãozinho da ordem do parquímetro?

Uma questão de memória (2)

Parece que a coisa está mesmo feita: Santana Lopes vai ser o líder da bancada parlamentar do PSD de Luís Filipe Menezes. Como previa Ricardo Costa, director da SIC Notícias, na noite da eleição do novo líder, "vão ser momentos muito divertidos".
E serão. O que esperar de um partido liderado por um populista que fará da Câmara de Gaia o seu palco político, porque não é deputado? O que esperar desse mesmo partido que terá como líder de bancada um populista guerreiro, que queria ser primeiro-ministro, foi-o durante quatro meses, foi corrido e perdeu as eleições seguintes?
Sócrates vai ter obviamente tarefa mais complicada e pode esperar oposição bem mais aguerrida. Mas tem uma vantagem: é que à semelhança do que diz o cartaz do próprio (Janeiro de 2005), os portugueses conhecem-no muito bem...

Uma questão de memória

Após a queda de Santana Lopes do Governo, em Novembro de 2004, o PSD (perdão, o PPD/PSD) lançou por Portugal inteiro um cartaz provocatório. Já então as sondagens diziam que os portugueses se preparavam para tirar a direita do poder e voltar a dar uma nova oportunidade aos socialistas, esquecido que estava o pântano de Guterres.
O cartaz era este. Lembra-se?





Ora, justamente, no meio de um congresso em que só se devia falar de Luís Filipe Menezes, é o nome de Santana Lopes que mais se ouve. Não é surpreendente, mas é revelador. Talvez fosse altura dos socialistas retribuírem a gracinha: "Será que você quer que eles (santanistas) voltem?"

RTP versus Rodrigues dos Santos




As coisas nunca são a preto e branco. Procurar a razão nos extremos pode ser muito corajoso, mas nem sempre é justo. A propósito da crise na RTP, provocada pelo "caso José Rodrigues dos Santos", tenho para mim que nenhuma das parte tem a razão absoluta do seu lado. Defendo obviamente a liberdade de opinião do pivô da RTP, mas percebo bem o argumento da administração sobre o dever de lealdade de um alto quadro para com a sua empresa. Vamos, pois, por partes.

1. No essencial, na entrevista à Pública, José Rodrigues dos Santos não conta, no que aos factos diz respeito, nada de novo em relação ao que disse em 2004, que levou ao seu pedido de demissão.O que difere, isso sim, é o tom em que é dito. E continuam estranhas as razões que levaram o pivô a desenterrar este caso, uma vez que, ao que parece, o Público não lhe fez quaisquer questões sobre a matéria (ver, a propósito, a nota da direcção editorial do jornal, sobretudo o ponto 2, aqui)

2. A forma como o Pública titula a entrevista, e a grande chamada de primeira página que faz à entrevista na Pública, é profissionalmente desonesta. Sei, por experiência própria, como por vezes é difícil titular e sintetizar ideias num título, mas escrever "A administração da RTP passa recados do poder político" não é, seguramente, igual nem a síntese do que foi originalmente dito: "Falo na interferência da administração na área editorial. As minhas conversas com os governos, PS ou PSD, foram quase inexistentes. Na minha experiência, os governos contactam as administrações e depois estas passam, ou não, os recados."

3. No dia seguinte, José Rodrigues dos Santos, em entrevista na última página do DN, reitera o que disse à Pública, não revela qualquer desacordo nem insatisfação como o trabalho saiu publicado. Seria normal, se houvesse algum desacordo, que o jornalista aproveitasse para se demarcar do que saiu escrito. Isso não aconteceu.

4. O comunicado da administração da RTP, emitido terça-feira, é de uma violência inaudita, com passagens de extremo mau gosto: em quatro momentos trata Rodrigues dos Santos -que foi duas vezes director de Informação da empresa e o rosto mais popular da Informação da RTP, como "empregado", em vez de utilizar a palavra "quadro"; a referência ao dinheiro que não deixou de ganhar; a alusão ao incumprimento de horários, etc. Além disso, à falta de provas levanta ainda insinuações sobre alegadas motivações secretas do pivô para ressuscitar o caso três anos depois dos factos.

(ver aqui comunicado e entrevista)


Sejamos claros: José Rodrigues dos Santos até pode ter motivações secretas que o motivaram a dar esta entrevista, mas um comunicado de um conselho de administração deve resumir-se a factos. Na ausência de certezas, uma administração deve ficar calada, sob pena de entrar no jogo das mensagens dissimuladas que parece querer atacar.
Por outro lado, porém, se Rodrigues dos Santos não se deu ao trabalho de desmentir publicamente o Público (hoje em dia bastava um telefonema para a Lusa, a demarcar-se da entrevista e a esclarecer a sua posição, que facilmente faria chegar uma notícia minutos depois às redacções de todos os órgãos de comunicação...), é porque aparentemente está de acordo com o que ali está expresso.
Ora, apesar de Rodrigues dos Santos ter direito à sua opinião, tem de ter consciência que não é um qualquer quadro da RTP. Foi duas vezes director de Informação, é um dos apresentadores do principal espaço de informação do canal, aliás, o mais visto pelos portugueses. Rodrigues dos Santos bem pode dizer que não tem qualquer intervenção editorial no que lê. As classes A/B sabem bem o que isso quer dizer. Mas a maioria dos portugueses que o vê às 20.00, não. Para essa maioria, Rodrigues dos Santos é a cara da RTP naquele momento. É ele que está a dizer aquilo, independentemente de poder ter sido escrito ou sussurado por outro. Ou seja, há, pois um dever de reserva a que Rodrigues dos Santos, em minha opinião, deve obedecer. Ou então, sendo coerente com o que fez em 2004, recusa-se a apresentar o Telejornal, por não querer ser porta-voz de recados do poder. Ao não o fazer, Rodrigues dos Santos prefere navegar em dois mares: por um lado, é a cara da RTP, beneficiando do protagonismo que isso lhe confere, até para as suas actividades extra-profissionais, por outro lado coloca em causa o bom nome da empresa.

Foto: DN

Voltei!

Uma semana e meia fora do blog e tanta coisa nova aconteceu... Vamos ter que colocar a escrita em dia. Até já!

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

As razões do silêncio

Não, o blogueiro ainda não desistiu. Está vivo e recomenda-se. E regressa ao País na próxima segunda-feira. Voltarei então às lides.
Hasta!

sábado, 29 de setembro de 2007



A SIC Notícias voltou ontem a honrar a sua história e a mostrar porque é, quando quer, a televisão de referência em Portugal. Com a RTP1 mais interessada no musical Amália, com a SIC a apostar no CSI e a TVI entregue ao erotismo do filme "Círculo de Sedução", coube à SIC Notícias acompanhar a eleição directa no maior partido da oposição. E sem concorrência, até porque a RTP N se limitou a alguns apontamentos do PSD, mas acabou por dar bem mais importância ao Benfica-Sporting de hoje.
O previsível adiantado da hora em que se conheceriam as decisões (acabou por ser mais cedo do que se previa!) impediu a presença em estúdio do habitual e valioso leque de comentadores, que o momento exigia, mas ainda assim, o canal cumpriu. Ricardo Costa, com o desassombro habitual dos seus comentários, foi o mestre de cerimónias, a que se juntaram, já perto das 2h00, António José Teixeira em estúdio, e Mário Bettencourt Resendes, por telefone.

PS - Em dois momentos da noite, Ricardo Costa fez referências, irónicas e en passant,ao episódio da interrupção de Santana Lopes na entrevista de quarta-feira passada. Primeiro, por volta da uma da manhã, quando falando do estilo imprevísivel de Santana Lopes, disse "como ainda se viu esta semana". Mais tarde, já passava das duas, com António José Teixeira em estúdio, Ricardo Costa comentava a possibilidade de Menezes apostar em Santana Lopes para líder de bancada do PSD. "Não acredito nisso(...) Isso seria muito divertido. Para a SIC Notícias seria muito divertido. Nem seria preciso alterar os nossos critérios editoriais", disse, entre gargalhadas. Não havia necessidade.

Foto: DN

Nem parece que tinha ganho



É impressão minha ou o Luis Filipe Menezes não entrou com o pé direito como líder do PSD? Um discurso longo de mais, sem chama, cansado, sem ponta de emoção, muito pouco galvanizador. Tentou, e fez bem, um registo conciliador. Menezes sabe que vai precisar de alguma da credibilidade que estava do outro lado da contenda, para tentar essa "missão (quase) impossível" de ser Governo em 2009. Sendo, porém, diferente de Santana Lopes, Menezes tem no seu ADN alguns dos genes do santanismo. É afectivo, emotivo, próximo das pessoas. Foi assim que renasceu politicamente em Gaia. Foi assim que conquistou o PSD. Terá de ser assim, se os portugueses quiserem, que conquistará o País. Se tentar vestir um fato que não é seu, soará a falso. Seria o mesmo que ver Luís Filipe Vieira a citar Nietzsche ou Schopenhauer...

A bases e os barões assinalados




O estado a que o PSD chegou fica bem claro quando Macário Correia é considerado um barão do PSD. Para mim, que nunca votei PSD, barões são Ângelo Correia, Montalvão Machado, Eurico de Melo, Manuel Dias Loureiro e tantos outros. Pela minha cabeça, nunca passaria a ideia de incluir na lista dos barões o homem que ficou famoso por dizer que "beijar uma mulher que fuma é como lamber um cinzeiro". Mas, pronto, deve ser problema meu, que fumo e não é pouco. Percebi, portanto, pelos relatos jornalísticos dos últimos dias, e sobretudo, pela cobertura televisiva desta noite eleitoral, que, sim, que Macário já está no olimpo.
O rosto de Macário, fechado, cerrado, quase de menino birrento a quem tiraram o brinquedo, ao lado de Marques Mendes na hora do discurso de derrota, diz tudo sobre estas directas. Para lá de Mendes, os barões (os que estiveram com Mendes, mas também os que se mantiveram à margem, num cauteloso e estratégico silêncio, mas fazendo figas para que, oh desgraça!, o populista Menezes não ganhasse), são os grandes derrotados.
A coisa não é de todo surpreendente. Ao abrir o partido às directas, em vez de escolher o seu líder em congresso, abriu-se a caixa de pandora. Neste registo, as bases elegem e os barões (quaisquer que eles sejam) têm um poder bem menor do que julgam. O grande drama do PSD é que uns (barões) e outros (bases), apesar do hipócrita discurso habitual (tipo "não houve qualquer luta, mas sim uma saudável troca de ideias", ou "o partido não está morto, mas sim demonstrou grande vitalidade", ou ainda "precisamos de todos juntos para sermos maiores") não se tocam. A coabitação é impossível. Juntá-los seria como realojar o pessoal da Brandoa na Quinta da Marinha...

O laranja e o roxo

Era meia-noite quando se percebeu que Marques Mendes tinha perdido as directas no PSD. No hotel onde estava instalado o seu quartel-general, todos os presentes, incluindo os jornalistas, puderam acompanhar ao longo da noite, o andamento da votação através de um painel em power point onde as votações em Mendes (a laranja) e de Menezes (em roxo) iam aparecendo. Enquanto as coisas estiveram equlibradas, tudo bem. À meia-noite, porém, o painel apagou-se. Ou foi apagado. Os rostos fecharam-se. Percebeu-se, então, o filme...

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A escolha de Clara de Sousa *


Clara de Sousa está a colher os frutos de uma opção arriscada que tomou. Em Portugal, não há hábito entre os jornalistas de aderir ao entretenimento. Há casos de profissionais que deixam o exercício do jornalismo para apresentar programas (Bárbara Guimarães é disso exemplo), mas não há muitos que se mantenham nos dois patamares. Há uma certa ideia de “cada macaco no seu galho” e que a entrada numa área de lazer pode beliscar a credibilidade conquistada na outra. São, todas elas, opções defensáveis. Mas Clara deu o passo (Júlio Magalhães, na TVI, é outro exemplo) agora em Família Superstar. E está a ganhar com isso. Foi capa de revistas, deu entrevistas, foi fotografada, tornou-se mais próxima do espectador. O resultado está à vista: o Primeiro Jornal da SIC cresceu em audiências e bateu nesta semana o Jornal da Tarde, da RTP. O público, normalmente, gosta de quem não se fecha numa redoma.

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* Texto publicado na revista de televisão do DN - 28.09.2007

É o umbigo, estúpido!




A saída de Santana Lopes a meio da entrevista na SIC Notícias não teve só o condão de reunir elogios da esquerda à direita do espectro político da blogosfera. A atitude de Santana teve outro mérito. Sim, eu sei que isto é um bocadinho umbiguista, mas para quem se estreou nestas lides há apenas três semanas, e está habituado a 40/50 visitas diárias (70 no melhor dos dias...), ter 397 visitas e mais de mil páginas vistas em apenas 24 horas é o paraíso.
Um obrigado aos blogueiros responsáveis pela proeza, mas o grande agradecimento vai para Santana Lopes. Sem ele... nada disto era possível!

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O pleno de Santana



Que outro político português, depois de uma desastrada, e felizmente curta, aventura como primeiro-ministro conseguiria esse espantoso pleno de elogios na blogosfera, da esquerda à direita? Só mesmo Santana Lopes, que recusou esta noite continuar uma entrevista à SIC Notícia depois de ter sido interrompido por um directo da chegada de Mourinho a Portugal.
"Convidam-me para vir aqui falar de coisas importantes, eu venho, com prejuizo para a minha vida pessoal e interrompem por causa do Mourinho. Eu sei que ele é importante, mas francamente, isto está tudo doido", disse Santana, perante uma surpreendida Ana Lourenço. E a entrevista ficou por ali.
As reacções não se fizeram esperar. De todos os quadrantes políticos.
Vital Moreira aqui, João Villalobos aqui, Daniel Oliveira aqui, Medeiros Ferreira aqui, Pacheco Pereira aqui, João Pinto e Castro aqui, ou João Pedro Henriques aqui.

Sejamos claros: o que a SIC Notícias fez não tem desculpa. Não há critério editorial que justifique a interrupção. Bem educado e elegante, Santana esperou o directo do não-acontecimento para explicar que ficava por ali. Ana Lourenço, seguramente a menos culpada (naturalmente, apenas cumpriu o que lhe disseram ao ouvido) não conseguiu reagir. Percebe-se porquê.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Perguntinha inocente II



Com a novela assim, como dizer?, tão intensa, é caso para perguntar: que PSD vamos ter a partir de sábado?

A publicidade e o ensino do português



Gosto de publicidade. Não sou dos que mudam de canal quando chegam os intervalos. Seguramente por formação profissional, gosto de ver de que forma as marcas se apresentam ao público/consumidor, que estratégias usam, que canais utilizam. Sei que um bom anúncio tem de surpreender, tem de ficar na cabeça do espectador/ouvinte. Só assim a notoriedade da marca aumenta e a mensagem chega ao receptor. Mas mesmo percebendo isso, e compreendendo que se recorra ao humor e ao exagero, não suporto a publicidade com erros ortográficos ou, pior, que induz o espectador/ouvinte a um mau uso da língua portuguesa.
No Verão passado, o anúncio da bebida Decider, feita à base de cidra, terminava com a assinatura "Fica ciderado". Assim, com C. O aproveitamente era óbvio: cidra escreve-se com C, então toca a aproveitar a onda. Percebe-se a intenção: a mensagem que a agência criativa pretende é que o consumidor fique "ciderado", ou seja, fiel à cidra. Só que num anúncio destinado a um público-alvo jovem e urbano, num país onde se fala e escreve tão mal português, choca-me. Muitos terão ficado a pensar que siderar se escreve com C e não com S.
Agora, este ano, é a vez da Vobis apostar numa publicidade que, em rádio, é um convite à dúvida e ao erro. O spot de rádio da campanha de regresso às aulas começa com a voz da suposta professora na sala de aulas: "Meninos, vamos conjugar o VERBO tecnologia", ordena. E os meninos lá começam em uníssono: "eu jogo, tu imprimes, ele escreve, nós programamos, vós teclais, eles não fazem nada. Porque não foram à Vobis"*.
A ideia é simples e produz efeito. O problema é que a palavra "tecnologia" não é um verbo, é um substantivo. Nem mesmo na TLEBS, agora adiada para as calendas gregas... Quantos dos jovens estudantes a quem se dirige a publicidade, e que pouco sabem de português, passarão convictos a achar que "tecnologia" é mesmo um verbo conjugável?

Enfim, dir-se-á que os publicitários não são professores de português, não têm qualquer obrigação de ensinar.Mas sendo a língua portuguesa um património comum e uma ferramenta essencial para o seu trabalho, um pouco mais de imaginação não seria pedir muito...

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* As acções de cada tempo verbal retiradas do anúncio não serão exactamente aquelas, nem por aquela ordem, mas para o caso vai dar ao mesmo.

Olha outro!

Repito que nada tenho contra o rugby e a selecção portuguesa, mas já a 12 de Setembro tinha aqui criticado a histeria colectiva que se apoderou do País a propósito da participação portuguesa no Mundial da modalidade.
Hoje, com a ironia que faz dele um dos melhores cronistas da Imprensa portuguesa, João Miguel Tavares escreve no DN um texto imperdível (ler aqui).